Aprenda › Professores › Raciocínio e problemas

Para professores

Raciocínio e resolução de problemas

Quando uma abelha encontra flores, ela volta para a colmeia e dança para mostrar às outras o caminho. Explicar como você chegou à resposta é a sua dança: isso é raciocinar!

A BNCC coloca o letramento matemático no centro da matemática do Ensino Fundamental: raciocinar, representar, comunicar e argumentar, e não só fazer contas. Muitas habilidades começam com “Resolver e elaborar problemas…”: no 1º ano, a EF01MA08 pede que a turma resolva e elabore problemas de adição e subtração; no 3º ano, a EF03MA07 faz o mesmo com a multiplicação. Raciocinar é explicar, justificar e descobrir regularidades: “Como você sabe?”. Resolver problemas é usar o que já se sabe numa situação nova.

Para isso não é preciso uma aula separada. O raciocínio nasce das perguntas que você faz todo dia e do hábito de explicar em voz alta. As ideias abaixo servem para qualquer tema e qualquer ano, da pré-escola ao 5º ano.

Um roteiro para as situações-problema

Muitos estudantes leem o problema correndo, pegam os números que aparecem e fazem a primeira conta que vem à cabeça. Um roteiro fixo, colado no caderno ou num cartaz da sala, ajuda a desacelerar:

  1. Ler o problema inteiro, mais de uma vez se for preciso.
  2. Entender a pergunta: o que o problema quer saber?
  3. Separar os dados: o que já sabemos? Tem algum dado que não serve para nada?
  4. Planejar: desenhar, montar com material, estimar, escolher a operação.
  5. Resolver: fazer a conta, de cabeça ou armada.
  6. Conferir: a resposta faz sentido? A prova real confirma?
  7. Responder com uma frase completa.

Um exemplo do 3º ano: Laura tem R$ 20,00. Ela compra 3 picolés de R$ 5,00 cada um. Quanto vai receber de troco?

Peça sempre a frase completa, e não só “5”: escrever a resposta obriga a voltar à pergunta. E cuidado com as palavras-chave. “Gastou” parece pedir subtração, mas em “Enzo gastou R$ 5,00 na cantina e ficou com R$ 3,00. Quanto ele tinha antes?” a conta é 5 + 3 = 8. “Ganhou” parece pedir adição, mas em “Miguel ganhou 4 figurinhas e ficou com 12. Quantas ele tinha?” a conta é 12 − 4 = 8. Mais do que caçar palavras, vale pedir que a criança conte o problema do jeito dela ou faça um desenho.

Perguntas que fazem pensar

Deixe algumas destas num cartão preso ao crachá ou na parede da sala e use-as até virarem hábito, seu e da turma:

Me convença

Dê à turma um fato que todo mundo já sabe e peça que convençam você (ou um colega que faz o papel de desconfiado) de que ele é verdadeiro. “Porque eu sei” não vale: é preciso dar razões.

Um desenho, o material dourado, as tampinhas ou a reta numérica também valem como prova. Muitas das melhores explicações são desenhos.

Verdadeiro ou falso? Sempre, às vezes ou nunca?

Escreva uma afirmação no quadro; cada estudante decide se é verdadeira ou falsa e explica por quê. Misture umas e outras para ninguém adivinhar pelo padrão.

AnoAfirmaçãoResposta
Pré-escolaSe eu espalhar as minhas 5 tampinhas, fico com mais tampinhas.Falso. Continuam sendo 5; só ocupam mais espaço.
1º ano7 + 3 = 3 + 7Verdadeiro. Os dois lados dão 10: na adição, a ordem das parcelas não muda a soma.
2º ano15 − 6 = 6 − 15Falso. Na subtração a ordem importa: 15 − 6 = 9, e 6 − 15 nem dá para fazer com os números que a turma conhece.
3º anoQuando somamos 10 a um número, o algarismo das unidades não muda.Verdadeiro. 46 + 10 = 56: só muda o algarismo das dezenas.
4º ano¼ é maior que ⅓, porque 4 é maior que 3.Falso. Se você divide uma pizza em 4 pedaços iguais, cada pedaço fica menor do que se dividir a mesma pizza em 3.
5º ano0,65 é maior que 0,7 porque tem mais algarismos.Falso. 0,7 são 7 décimos; 0,65 são só 6 décimos e 5 centésimos.

A versão “sempre, às vezes ou nunca” rende ainda mais conversa, porque obriga a procurar exemplos e contraexemplos. No 5º ano, por exemplo: “multiplicando, o resultado fica maior que o número do começo” é verdade só às vezes (5 × 3 = 15, mas 5 × 1 = 5, 5 × 0 = 0 e 5 × 0,5 = 2,5). Mais duas:

Encontre o erro

Mostre uma conta resolvida com um erro e peça que a turma ache o erro, explique o que aconteceu e corrija. Isso intimida menos do que corrigir o próprio caderno e ajuda você a se antecipar aos erros que já sabe que vão aparecer.

A dica da Indie

Apresente o erro como se fosse de outra pessoa: “um estudante de outra escola escreveu isto”. As crianças adoram apontar o erro de um desconhecido, e quem teria cometido o mesmo engano aprende sem se sentir exposto.

Problemas abertos

Problemas com mais de uma resposta, ou com uma resposta só mas muitos caminhos, deixam todo mundo começar, e quem vai mais rápido sempre tem para onde avançar.

Os problemas de lógica e contagem, no estilo da OBMEP Mirim (a olimpíada de matemática dos anos iniciais, com o nível Mirim 1 para o 2º e o 3º ano e o Mirim 2 para o 4º e o 5º), também são ótimos para isso, participe a escola ou não. Dois para começar:

Quando a turma elabora os problemas

Elaborar um problema exige entender a estrutura dele: o que se sabe, o que se pergunta e qual conta liga uma coisa à outra. Algumas propostas:

O modelo de barras

O modelo de barras, usado em algumas escolas e que vem do chamado método de Singapura, representa o problema com retângulos. Ele ajuda a ver o que se sabe e o que se procura antes de escolher a operação. Os menores começam com a ideia de parte-todo: “Na turma do 2º ano há 23 estudantes, e 14 trouxeram lanche de casa. Quantos vão comer a merenda?” O todo é 23, uma parte é 14, então a outra parte é 23 − 14 = 9.

HeitorJúlia48
Júlia tem o triplo das figurinhas de Heitor, e os dois juntos têm 48. Quatro caixas iguais valem 48, então cada caixa vale 48 ÷ 4 = 12, e Júlia tem 3 × 12 = 36 figurinhas.

O modelo de barras também funciona com frações. Um desafio para o 5º ano (o cálculo da fração de uma quantidade ganha força no 6º ano, mas a barra deixa o problema ao alcance de muitas turmas): “Valentina gastou ⅖ da mesada e ficou com R$ 18,00. Quanto ela tinha?” Desenhe uma barra em 5 partes iguais e marque 2 como gastas. As 3 partes que sobraram valem R$ 18,00, então cada parte vale R$ 6,00, e a barra inteira vale 5 × 6 = 30: ela tinha R$ 30,00. Conferindo: ⅖ de R$ 30,00 são R$ 12,00, e 30 − 12 = 18.

gastou ⅖R$ 6R$ 6R$ 6sobraram R$ 18
Dois quintos gastos; os três quintos que sobraram valem R$ 18,00, ou seja, R$ 6,00 cada um.

Frases para explicar como pensou

Muitos estudantes sabem a resposta, mas não sabem dizer por quê. Começos de frase dão as palavras: use-os você primeiro, deixe-os à vista e peça respostas com frases completas.

Combine com a conversa em dupla: cada um explica primeiro para o colega do lado e só depois alguém responde para a turma toda.

Respostas rápidas

Qual é a diferença entre raciocinar e resolver problemas?

Raciocinar é explicar e justificar: por que algo é verdade, ou por que um método funciona. Resolver problemas é aplicar a matemática numa situação nova. Uma coisa puxa a outra: para resolver bem um problema, quase sempre é preciso raciocinar no caminho.

O raciocínio é só para quem vai bem em matemática?

Não. Todo estudante consegue raciocinar sobre a matemática que já domina. Use números menores ou material concreto para que a conta não atrapalhe o pensamento.

E se a turma ainda não lê com autonomia?

No 1º e no 2º ano, a prioridade é a alfabetização, e o raciocínio não precisa esperar. Leia o problema em voz alta, conte-o como uma história, use desenhos e encenações, e aceite respostas orais ou desenhadas. O registro escrito vem aos poucos.

Como o raciocínio aparece nas avaliações?

Na escola, no que a turma explica e registra no caderno ao longo do bimestre ou do trimestre. O Saeb (a cada dois anos, no 2º e no 5º ano) e as avaliações estaduais trazem situações-problema com contexto, e não só contas soltas; servem para acompanhar as redes de ensino e não dão nota ao estudante. Para as famílias, há o guia As provas de matemática da pré-escola ao 5º ano, explicadas.

Como faço os estudantes mais calados explicarem o que pensaram?

Dê tempo para pensar, deixe que contem primeiro para um colega e ofereça os começos de frase. Explicar para uma pessoa intimida muito menos do que explicar para trinta.

Pratique com a Indie

O Beequation Kids transforma os fatos básicos em desafios de favo de mel, e a abelha Indie dá uma dica quando a criança empaca. Sem anúncios e sem coleta de dados.

Continue aprendendo