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Como a matemática é ensinada hoje nos anos iniciais

Os alvéolos do meu favo são hexágonos, e seis se encaixam certinho em volta de um do meio. Num desenho, isso se vê na hora, e é por isso que na aula de matemática se desenha tanto!

Se você abriu o caderno de matemática do seu filho e quase não reconheceu nada, saiba que isso acontece em muitas casas. Hoje a escola quer que a criança entenda por que uma conta funciona antes de começar a treinar, e por isso aparecem tantos desenhos, tanto material dourado e tantas perguntas do tipo “como você pensou?”. Este guia explica o que seu filho provavelmente vai encontrar, mais ou menos na ordem em que isso acontece. Os materiais e o jeito de ensinar dependem da rede e da escola, então a turma dele pode fazer algumas coisas de outro modo.

O que a BNCC pede

A BNCC (Base Nacional Comum Curricular), homologada em 2017, vale para todas as escolas do país, públicas e particulares. Em matemática, ela organiza o conteúdo em cinco unidades temáticas (Números, Álgebra, Geometria, Grandezas e medidas, Probabilidade e estatística) e lista, ano a ano, as habilidades que a criança deve desenvolver. Cada uma tem um código que os professores conhecem bem: a EF03MA07, por exemplo, é a multiplicação por 2, 3, 4, 5 e 10 no 3º ano. Por trás de tudo, há três ideias:

Do concreto ao papel

Quase tudo começa com as mãos. Primeiro a criança mexe em objetos de verdade; depois desenha o que fez, com risquinhos, bolinhas ou retas numéricas; só então passa para os números e os sinais. Os materiais que você mais vai ver:

1. Material2. Desenho3. Números ++ →→ 34 + 25 = 59
34 + 25 de três jeitos. Juntando tudo, ficam 5 barras e 9 cubinhos, ou 5 risquinhos e 9 bolinhas: 5 dezenas e 9 unidades, ou seja, 59.

Isso não é coisa só dos pequenos. Uma criança do 5º ano que começa um assunto novo, como os números decimais, pode voltar ao material dourado, e isso não quer dizer que esteja atrasada.

Primeiro os fatos básicos e o cálculo mental

Antes da conta armada, a BNCC pede os fatos básicos e as estratégias pessoais de cálculo. Os fatos básicos da adição começam pelos pares que formam 10 (em alguns materiais, “amigos do 10”): 1 + 9, 2 + 8, 3 + 7, 4 + 6 e 5 + 5. De um par saem quatro contas: 7 + 3 = 10, 3 + 7 = 10, 10 − 7 = 3 e 10 − 3 = 7. É por isso que a adição e a subtração são ensinadas juntas. Mais ideias no guia dos pares que formam 10 e 20.

As estratégias pessoais são os caminhos que a criança usa para calcular de cabeça, e a professora pede que ela conte como fez:

A decomposição não é um desvio: é a ideia que está por baixo da conta armada. Mais truques nas estratégias de cálculo mental.

A conta armada

A conta armada (o algoritmo convencional, para os professores) continua firme nas escolas. A BNCC só fala em algoritmos com todas as letras a partir do 4º ano, mas muitas escolas começam entre o 2º e o 3º. A regra de ouro é armar a conta direitinho: unidade embaixo de unidade, dezena embaixo de dezena, um algarismo em cada quadradinho do caderno quadriculado, e começar pela direita.

Adição com “vai um”

Para 456 + 278, em voz alta: “6 mais 8 é 14: fica 4 e vai um. 5 mais 7 é 12, mais 1 é 13: fica 3 e vai um. 4 mais 2 é 6, mais 1 é 7.” Resultado: 734. O 1 que “vai”, escrito pequeno em cima da coluna seguinte, é a reserva: 10 unidades trocadas por 1 dezena (ou 10 dezenas por 1 centena), como trocar 10 cubinhos por uma barra. Os livros falam em adição com reagrupamento, ou com troca.

Subtração com “empresta um”

Quando o algarismo de cima é menor, a criança “pede emprestado” à coluna da esquerda. Para 624 − 357: “4 menos 7 não dá: pego emprestado 1 dezena do 2, que vira 1; 14 menos 7 é 7. 1 menos 5 não dá: pego 1 centena do 6, que vira 5; 11 menos 5 é 6. 5 menos 3 é 2.” Resultado: 267.

51114 CDU 624 −357 267
624 − 357 = 267. A conta muda de cara, mas não de valor: 5 centenas, 11 dezenas e 14 unidades continuam sendo 624.

Nada é emprestado nem devolvido: uma dezena é desmanchada em 10 unidades, como desfazer uma barra em 10 cubinhos. Por isso os livros dizem subtração com recurso ou com reagrupamento. A conta se confere com a prova real: o resto mais o subtraendo tem de dar o minuendo. Neste caso, 267 + 357 = 624.

A dica da Indie

Peça sempre a prova real: ela pega a maioria dos deslizes. Um erro comum é tirar o menor do maior em cada coluna, porque parece mais fácil do que pedir emprestado: em 624 − 357, a criança faz 7 − 4, 5 − 2 e 6 − 3 e chega a 333. Na prova real, 333 + 357 dá 690, e não 624, e o próprio caderno mostra que algo saiu errado. E se você aprendeu outro jeito de subtrair, pergunte à professora como a turma faz antes de ensinar o seu.

Multiplicação

A tabuada primeiro é construída, e só depois decorada: 3 × 4 são 3 grupos de 4 (4 + 4 + 4 = 12), ou uma disposição retangular de 3 linhas com 4 bolinhas. A BNCC começa pela multiplicação por 2, 3, 4 e 5 no 2º ano e acrescenta o 10 no 3º; a tabuada do 1 ao 10 costuma ser completada entre o 3º e o 4º ano. Veja como praticar a tabuada.

Na conta armada, multiplica-se primeiro por um algarismo e, mais tarde, por dois. Para 245 × 32, primeiro 245 × 2: “2 vezes 5, 10: fica 0 e vai 1. 2 vezes 4, 8, mais 1, 9. 2 vezes 2, 4.” Dá 490. Depois, 245 × 3 = 735, escrito na linha de baixo, uma casa para a esquerda (muitos professores pedem um 0 na casa das unidades), porque esse 3 vale 3 dezenas: é 245 × 30 = 7.350. Por fim, somam-se os produtos parciais: 490 + 7.350 = 7.840.

Divisão na chave

O dividendo fica à esquerda e o divisor à direita, dentro da “chave”. O quociente vai embaixo do divisor, e as contas de cada etapa, embaixo do dividendo. Primeiro vem o processo longo, com as subtrações escritas; depois, o processo breve, que só anota o que sobra. Para 694 ÷ 4: “6 dividido por 4 dá 1; 1 vez 4, 4; 6 menos 4, sobram 2. Baixo o 9: 29 dividido por 4 dá 7; 7 vezes 4, 28; 29 menos 28, sobra 1. Baixo o 4: 14 dividido por 4 dá 3; 3 vezes 4, 12; 14 menos 12, sobram 2.”

processo longoprocesso breve 694 4 173 −4 29 −28 14 −12 2 694 4 173 29 14 2 ← divisor← quociente← resto
694 ÷ 4 = 173, resto 2. À esquerda, o processo longo, com as subtrações escritas; à direita, o processo breve, só com o que sobra. O 2 rosa é o resto, que tem de ser sempre menor que o divisor.

A prova real também vale aqui: dividendo = divisor × quociente + resto, ou seja, 4 × 173 + 2 = 692 + 2 = 694. Alguns livros ensinam antes o processo por estimativas, que vai tirando pedaços fáceis do dividendo: em 156 ÷ 6, tira-se 10 × 6 = 60 (sobram 96), mais 10 × 6 = 60 (sobram 36) e 6 × 6 = 36 (não sobra nada). O quociente é 10 + 10 + 6 = 26.

Álgebra no 1º ano?

Muitos pais levam um susto ao ver “Álgebra” no plano do 1º ano. Calma: não tem letra nenhuma. Nos anos iniciais, álgebra quer dizer perceber padrões e entender o sinal de igual.

Mais no tema álgebra e proporcionalidade.

Problemas: entender antes de calcular

As situações-problema aparecem desde o 1º ano. Algumas escolas usam o modelo de barras, do chamado método de Singapura: um desenho simples que transforma o enunciado numa imagem e ajuda muito quando a criança não sabe por onde começar.

AliceDavi32 ?
Davi tem o triplo das figurinhas de Alice, e os dois juntos têm 32. São 4 barras iguais e 32 ÷ 4 = 8: Alice tem 8 figurinhas e Davi, 24.

O roteiro costuma ser este: ler com calma, separar o que se sabe e o que se pergunta, desenhar e só então escolher a conta. Muitos professores pedem a resposta numa frase completa (“Alice tem 8 figurinhas”), para que a criança volte à pergunta e confira se faz sentido.

Jogos e brincadeiras

Na pré-escola, a BNCC põe as interações e brincadeiras no centro, e a matemática entra brincando: contar quem veio na chamadinha, marcar o dia no calendário, jogar trilha com dado. Nos anos iniciais, os jogos continuam na sala de aula. Um clássico é o nunca dez: cada um, na sua vez, joga o dado e pega essa quantidade de cubinhos do material dourado; juntou dez, troca por uma barra, porque ninguém pode ficar com dez cubinhos. É o “vai um” na prática. Outros, como o boliche das somas com garrafas PET ou o bingo da tabuada, mudam de nome de escola para escola. Mais ideias em matemática no dia a dia.

Por que se ensina assim

Respostas rápidas

Devo ensinar a conta do jeito que eu aprendi?

Na lição de casa, use o jeito da escola, para que seu filho não tenha de lidar com dois métodos ao mesmo tempo. O seu jeito não está errado se dá o resultado certo, e, quando a criança estiver segura, pode ser divertido comparar os dois.

Por que meu filho ainda desenha em vez de fazer a conta?

Porque o desenho mostra o que os números querem dizer. Ele vai passar a usar só números quando estiver pronto, e o que entendeu desenhando fica com ele.

Como sei qual método a escola usa?

Olhe como as contas estão feitas no livro didático e no caderno, e pergunte à professora na reunião de pais ou por um recado na agenda. O importante é não explicar em casa a mesma conta de outro jeito sem combinar com a escola. Mais dicas em como ajudar em casa.

Pratique com a Indie

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